Sistema de saúde em
Muzambinho
pode entrar em colapso
O
impasse está criado envolvendo a Santa Casa de Muzambinho, a Prefeitura e os
médicos que atendem através de convênio o Pronto Atendimento, cujas instalações
foram reformadas e entregues para a população na semana retrasada.
A
origem do problema
O
corpo clínico do PA estará sem diretor que já comunicou seu afastamento a
partir de 2 de março próximo quando encerra o seu período contratual e que
nenhum dos profissionais que lá atuam estão querendo assumir a direção. Além
disso, os médicos também estariam “desistindo” do atendimento no PA e as razões
são claras. Há insatisfação quanto à remuneração que hoje é paga através do
convênio com a prefeitura que é responsável por colocar a disposição da população
o atendimento de saúde e a responsabilidade que envolve estar à frente de um
setor como esse é muito desgastante.
Caso
isso aconteça o impasse tornar-se-á um grande problema nas mãos e com
possibilidade de virar um caso de polícia e até com intervenção do Ministério
Público, pois a população da cidade e da região, que depende do atendimento que
existe a dezenas de anos em virtude do convênio firmado entre a Santa Casa e a
Prefeitura estaria “ao léu” e sem poder ser socorrida nos casos de emergência.
O
provedor Altamiro A. de Melo Filho, procurou o prefeito e apresentou planilha
de custos referentes as atividades do PA e posteriormente o Dr. Paulo Alvarenga
e o Dr. José Roberto Macedo, também se dirigiram ao gabinete do chefe do
executivo informando que o sistema será paralisado se não houver uma solução
para o impasse.
Procuramos
o provedor que em longa entrevista esclareceu alguns fatos.
1
– O hospital tem 63 leitos e sua taxa de ocupação dificilmente ultrapassa os
50%, o que significa que a estrutura para atender o hospital é suficiente para
que sua administração ocorra sem nenhum problema.
2
– Para internações o SUS repassa hoje a importância de R$ 23,00 de diária para
que o paciente tenha hotelaria, remédios e alimentação completa. Hoje qualquer
hotel de 5ª categoria cobra no mínimo R$ 30,00 somente para hotelaria e no
máximo um simples café da manhã.
3
– Feitas as contas, para atender ao PA a Santa Casa gasta cerca de 70% de sua
receita, mesmo recebendo as verbas destinadas pelo convênio.
3
– O setor de PA, acaba sobrecarregando os trabalhos, uma vez que o pessoal
disponibilizado para atender estruturalmente (enfermeiros, auxiliar de
enfermagem, pessoal da limpeza, farmácia, setor administrativo, etc.), atua
mais para dar atenção ao PA do que ao próprio hospital, embora o provedor não
veja isso como um problema. Ele citou apenas para ilustrar que a Santa Casa vai
além de suas obrigações para colaborar com a prefeitura.
Questões
de remuneração
Os
médicos estão questionando a baixa remuneração que é repassada pela prefeitura
e estão dispostos a pedir demissão de seus cargos caso não se chegue a um
denominador comum com um aumento que fosse de acordo com suas reivindicações. O
Secretário de Saúde, Sr. Aloísio Santini e o prefeito Sérgio Cerávolo Paolielo
(Esquilo), que sempre nos recebem sem nenhuma restrição, comentaram o assunto
de deram algumas explicações sobre a remuneração.
Numa
tentativa de fazer com que tudo se resolva o mais rápido possível agiram com
rapidez e após consulta aos setores financeiros e jurídicos da prefeitura eles
propuseram aos médicos um substancial aumento na remuneração cujo quadro é o
seguinte:
A
prefeitura está aumentando a remuneração, passando dos atuais R$ 600 reais
mensais de segunda a sexta para R$ 800 reais. E aos sábados, domingos e
feriados dos atuais R$ 800 reais mensais para R$ 1.000 reais, sendo que no
período de carnaval a remuneração será dobrada para R$ 2.000 reais, mensais.
A
remuneração do chamado “sobreaviso” (plantão a distância) hoje é remunerado com
R$ 2.000 mensais e a prefeitura está oferecendo um aumento substancial de 50% e
os médicos passariam a receber R$ 3.000.
Segundo
o prefeito, outro questionamento que está sendo feito é com relação a tabela do
SUS, cujo repasse do governo federal não é reajustado há muitos anos e essa
defasagem prejudica a estrutura de atendimento em nossa cidade.
O
Convênio firmado entre a Prefeitura com a Santa Casa prevê repasse no valor de
R$ 44.500 reais mensais e com os aumentos acima a prefeitura terá que refazer
os cálculos para os investimentos no setor de saúde para evitar que haja
colapso no atendimento a população.
Direção
do Corpo Clínico
O
provedor informou que apenas um profissional está se dispondo a assumir a
direção do corpo clínico que atende o PA, mas somente se a remuneração for
digna de um cargo de tamanha responsabilidade.
Palavra
do administrador da Santa Casa
Ouvimos
o administrador daquele nosocômio, o Senhor Durval de Oliveira e o mesmo tentou
amenizar a situação dizendo que as negociações estão em andamento e que nos
próximos dias todos deverão chegar a um consenso e a situação será normalizada.
Ele disse que é um problema pontual e que em outras oportunidades as entidades
(Santa Casa e Prefeitura) entraram em acordo e momentos de alternância trouxeram
solução para o pagamento dos médicos quando hora a Santa Casa e hora a
Prefeitura cobriam algumas diferenças necessárias para que a população não
fosse prejudicada e ficasse sem atendimento. Ele explicou também que há sempre
de plantão um clínico geral e os outros especialistas fazem plantão a distância
e quando o caso exige, eles comparecem imediatamente para dar atendimento aos
pacientes.
Pacientes
reclamando
Ouvimos
também alguns pacientes e seus familiares e as reclamações são muitas,
envolvendo desde a má vontade, falta de educação e desdém por parte de alguns
médicos que “nos tratam como se fossemos bichos” sempre que precisamos do
atendimento.
Nesta
semana uma senhora se apresentou com um braço quebrado com fortes dores e sequer
foi examinada. Ela se disse “mal atendida por um médico (vamos verificar o
nome) e dispensada sob a alegação de que não havia médico ortopedista para
poder atender no momento e orientada a procurar socorro em outra cidade”. O
provedor informou que geralmente os médicos que fazem clínica ou outra
especialidade não fazem nada além de suas atribuições e encaminham os casos
para atendimento aos especialistas, até por uma questão de responsabilidade e
nós entendemos. O que não ficou bem esclarecido no caso acima, é porque o
ortopedista que deveria estar de “sobreaviso” não foi chamado para dar
atendimento à paciente.
Médicos
para nossa cidade
Uma
das coisas que nos deixou extremamente preocupados foi a informação de que
muitos profissionais foram contatados para virem para Muzambinho e não
aceitaram o convite porque conhecem a “fama” de que novos médicos são colocados
“meio a margem” e alguns que vieram tiveram que ir embora porque os seus
espaços ficaram “limitados” ao serviço no Pronto Atendimento (antigo Pronto
Socorro) e sem abertura para abrirem seus próprios consultórios e angariar sua
clientela através de sua competência.
Nossa
reportagem apurou que muitos desses médicos não permaneceram na cidade porque o
diretor clínico, no uso de suas atribuições tem a obrigação de fazer uma
triagem sobre a capacitação do profissional quanto as suas especialidades e
diversos dos que tentaram ser contratados, acabaram sendo dispensados porque
não puderam comprovar a capacitação na especialidade a que se propunha
trabalhar.
Estamos
tentando entrar em contato com um desses médicos para que ele possa o que
aconteceu quando esteve aqui e tentou ser contratado para atender para atender
pelo convenio da prefeitura e clinicar particularmente.
A
população precisa ser esclarecida
Primeiro
que a mudança de Pronto Socorro (PS) para Pronto Atendimento (PA), nada mais é
do que uma estratégia usada pelo poder público para deixar de entregar a
população um serviço eficiente.
As
cidades que mantém unidades de PS são obrigadas a manter os especialistas
presentes nos plantões e deverão ter em sua estrutura as Unidades de Terapia
Intensiva (UTI), enquanto nos PAs os médicos podem permanecer em “sobreaviso”
(chamados plantões a distância) e quando solicitados tem que se apresentar no
recinto de atendimento.
A
legislação permite essa diferenciação de acordo com o número de habitantes de
cada município.
O
poder público municipal, porém, não é obrigado seguir a legislação e pode
trabalhar com um gerenciamento na saúde que lhe permita manter uma estrutura de
PS. Basta que sejam ordenadas ações (como as que estão sendo feitas hoje com
muita competência pelo atual secretário de saúde de Muzambinho), onde a
descentralização dos PSFs, a criação dos ambulatórios nos bairros periféricos e
outras ações possam reduzir os custos. Hoje a população tem uma cultura de
qualquer dor de barriga tem que ir ao PS sem entender que muitos dos pequenos
problemas de saúde possam ser resolvidos nos PSFs. A mudança de comportamento
da população, através de campanhas de conscientização poderão mudar esse
comportamento e muito do que é gasto hoje para a medicina curativa poderá ser
investido na medicina preventiva.
Esse
conjunto de medidas poderá fazer com que a cidade possa ter a estrutura de um
PRONTO SOCORRO e não de um simples PRONTO ATENDIMENTO (que guardadas as
proporções, em alguns casos emergenciais podem ser comparado a um setor de
quebra galhos), cujos médicos poderão simplesmente fazer o chamado atendimento
pra manter o paciente vivo e pedir a transferência para outra cidade que tenha
estrutura apropriada.
Dependendo
do caso muitos poderão ser levados a óbito. E quem se responsabilizará?
Jornalismo
investigativo e informativo
Esta
situação de desentendimentos com relação a saúde em Muzambinho é antiga e a
cada ano que passa parece que não há ninguém com boa vontade de solucionar.
Estamos procurando ir a fundo no assunto e coletando dados que assim que
estivermos documentados vamos trazer a público. São situações estarrecedoras
cujas fontes de informação tem até medo de retaliações caso revelem suas
identidade.
A
situação é grave e nossa reportagem buscou apurar os fatos. Caso não haja
direção no corpo clínico a unidade do PA será paralisada, pois a lei não
permite atendimento sem um diretor e o sistema de saúde da cidade poderá
atingir o “caos”.
Levantamos
alguns dados que estamos trazemos aos leitores internautas e esperamos que as
autoridades e os profissionais envolvidos cheguem a um consenso e que não haja
a necessidade de intervenção da justiça para levar a bom termo um acordo entre
as partes.
Reportagem de Cláudio Ferreira
Nota
da Redação: Transcrevemos
a seguir na íntegra o trecho da Constituição que fala do dever do Estado com
relação ao atendimento a saúde do cidadão brasileiro e deixamos um pedido ao
representante da comunidade que integra o Conselho Municipal de Saúde (conforme
item III do artigo 198). “Por favor, analise as questões aqui apresentadas
nesta reportagem e lute, questione, peça ajuda a especialistas na matéria e se
necessário vá ao Ministério Público e a luta do povo será coroada de vitórias”.
Seção
II
DA SAÚDE
Art. 196. A
saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas
sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos
e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção,
proteção e recuperação.
Art. 197. São
de relevância pública as ações e serviços de saúde, cabendo ao Poder Público
dispor, nos termos da lei, sobre sua regulamentação, fiscalização e controle,
devendo sua execução ser feita diretamente ou através de terceiros e, também,
por pessoa física ou jurídica de direito privado.
Art. 198. As
ações e serviços públicos de saúde integram uma rede regionalizada e
hierarquizada e constituem um sistema único, organizado de acordo com as
seguintes diretrizes:
I -
descentralização, com direção única em cada esfera de governo;
II -
atendimento integral, com prioridade para as atividades preventivas, sem
prejuízo dos serviços assistenciais;
III -
participação da comunidade.